quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Polichinelo

Sempre fui apaixonada por música, desde pequena gostava de me sentar ao piano e inventar músicas. Inventava letras para as músicas, inventava bonecos que se transformavam em brilhantes bailarinos. Até que resolvi começar a estudar piano aos doze anos. Tudo estaria perfeito se não fosse aquela fraçãozinha que aparece no começo da música.
Eu não conseguia entender pra que diabos servia aquela fração. Entendia perfeitamente um compasso 4/4. O número é o tempo de cada compasso, o denominador indica a nota que vale um tempo. Poderia tocar qualquer música desde que o denominador fosse 4 (pelo menos assim imaginava). Mas decidiram me ensinar como seria uma música com um denominador valendo 8.
Entrei em desespero, tudo aquilo me parecia inútil. Pra que tinham que mudar o denominador? Qual o problema da seminima sempre valer um tempo? Pra mim a semínima valendo um tempo já havia se tornado uma constante universal, mas de repente alguém me diz que nem sempre é assim. Sentei ao piano, comecei a chorar de raiva e não lembro se gritei ou apenas pensei "NUNCA MAIS VOU TOCAR PIANO!".
Estava decidido, não queria mais saber de música, havia sido iludida pela seminima.
Se passaram dois anos, dois amargurados anos, assim que a mágoa da semínima passou descobri uma nova paixão:o violão.
Tive um começo fantástico, no final das contas, o que aprendi de teoria musical me foi extremamente útil. Já começava a me imaginar como uma exímia violonista. Até que me chamaram pra apresentar no teatro em um festival de música. Concordei de cara. Então me apresentaram ao "Polichinelo". Deveria tocars essa música no festival junto com mais umas sete ou oito pessoas. Entrei em pânico, desisti dois dias antes da apresentação. Tomei um sentimento de quase ódio a essa música, nunca mais a ouvi.
Desisti do violão.
Dois anos novamente se passaram, o rancor pela semínima se passou por completo. Voltei ao piano. As coisas iam bem. Até que eu descobri: minha mão não alcança mais que uma oitava.
Confesso que pensei em desistir novamente. Mas desisti de desistir. Só não me peçam para tocar Polichinelo.

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